
Por Lêda Lima
Durante os últimos dias, que foram dias santos para católicos em todo o mundo, me controlei para não opinar nem falar sobre, pois não comungo da mesma doutrina religiosa, mas, como uma virginiana nata, fiz minhas críticas, optei por fazê-las em pensamentos e me consumi por dentro. Mas, com a morte do Papa Francisco nesta segunda, 22.04, algumas frases icônicas de Vossa Santidade voltaram aos holofotes em veículos de comunicação, e, dentre elas, destaco uma de 08 de novembro de 2017: “Fico muito triste quando celebro aqui na praça ou na basílica e vejo tantos celulares levantados. Não só de fiéis, mas também de sacerdotes e até bispos. Por favor! A missa não é um espetáculo.”
Vou escrever sobre o que me aflige, deixando claro que a opinião aqui é minha, e, se você não partilha dela, beleza também, mas eu sou assim: penso, me incomoda, eu escrevo ou falo sobre. O sagrado, em sua essência, é uma experiência presente em praticamente todas as culturas ao longo da história da humanidade. O sagrado é ligado a algo que consideramos estar além do mundo material e da nossa compreensão cotidiana. Em diversas culturas, o sagrado está ligado a códigos de conduta, definindo o que é certo e errado, o que é digno de respeito e o que deve ser evitado. As manifestações do sagrado envolvem inúmeras práticas que buscam conectar os indivíduos com uma dimensão transcendental. Ele evoca sentimentos de admiração, respeito profundo, temor… Em muitas sociedades, o sagrado desempenha um papel fundamental na construção da coletividade, unindo pessoas em torno de práticas e crenças.
Já faz algum tempo que nos contam que a tecnologia e as redes sociais se tornaram ferramentas poderosas para compartilhar experiências e conectar pessoas. Para alguns fiéis, registrar e compartilhar momentos em templos pode ser uma forma de expressar sua fé, compartilhar a beleza do local e até evangelizar. Pode gerar curiosidade e atrair mais pessoas para conhecerem esses espaços? No entanto, a banalização do sagrado (no contexto religioso) é o outro lado dessa moeda, e é um lado muito pertinente. A constante busca por “conteúdo” e a cultura da exposição podem desviar o foco da experiência religiosa. A prioridade pode se tornar a captura da imagem perfeita ou a obtenção de “likes”, em detrimento da contemplação e da conexão espiritual.
Nesses dias de Semana Santa, através de uma das minhas redes sociais, vi o “Templo”, que é um espaço de encontro com o sagrado, sendo transformado em mais um cenário, perdendo o seu verdadeiro significado espiritual. A busca por popularidade nas redes sociais pode levar à criação de conteúdo superficial e até mesmo à comercialização de espaços sagrados de maneira inadequada.
Me pego pensando: qual seria a reação de Jesus se estivesse em carne e osso entre nós nos dias atuais?! Lembro da passagem em que Ele expulsa os comerciantes do templo, um dos momentos mais carregados de significado na passagem de Jesus pela Terra. “O zelo pela tua casa me consome” (Salmo 69:9) ressalta a paixão e a indignação de Jesus diante da desonra do lugar dedicado ao sagrado.
A expulsão dos comerciantes do templo por Jesus e a questão da banalização do sagrado nos templos atuais compartilham uma preocupação fundamental: a preservação da reverência e do propósito sagrado dos espaços religiosos. Embora os contextos e as formas de “comércio” sejam diferentes, a raiz da questão reside naquilo que desvia o foco da experiência espiritual e da conexão com o divino.
Os comerciantes se aproveitavam da necessidade dos peregrinos; a ganância corrompia a essência da adoração. Hoje, a obtenção de aprovação nas redes sociais pode se sobrepor à vivência autêntica da fé e à compreensão profunda dos rituais religiosos. Embora, nos dias atuais (na maioria dos casos), não haja comércio dentro dos templos, a busca por popularidade pode levar a uma forma sutil de “comercialização” da experiência religiosa, onde o templo e os rituais se tornam “conteúdo” para autopromoção e consumo.
A ação de Jesus nos lembra da importância de manter a integridade e o propósito dos espaços sagrados. Seja pela ganância dos comerciantes ou pela busca incessante por atenção nas redes sociais, qualquer coisa que desvie o foco da conexão com o divino e da vivência da fé com reverência pode ser interpretada como profanação. Bom seria se os fiéis conseguissem equilibrar o desejo de compartilhar e conectar com a necessidade de preservar o sagrado e o respeito devidos aos templos religiosos.
Que fique claro: aqui não falei sobre intolerância religiosa nem discriminação religiosa (afinal, não faço parte desse grupo), o meu objeto de crítica foi o catolicismo porque a data festiva e os fiéis envolvidos na banalização do sagrado são dessa tradição cristã.

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