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O Cavaleiro dos Sete Reinos T01EP01: um retorno simples, mas grandioso a Westeros

É a mais nova série de televisão da HBO de drama e fantasia criada por Ira Parker e George R. R. Martin. É a terceira série de televisão da franquia A Song of Ice and Fire de Martin. Se passa 90 anos antes do nascimento de Daenerys Targaryen e dos eventos de Game of Thrones,…

É a mais nova série de televisão da HBO de drama e fantasia criada por Ira Parker e George R. R. Martin. É a terceira série de televisão da franquia A Song of Ice and Fire de Martin. Se passa 90 anos antes do nascimento de Daenerys Targaryen e dos eventos de Game of Thrones, quando mesmo sem seus gloriosos dragões, a casa Targaryen detém o Trono de Ferro. Nesse cenário, dois improváveis heróis vagam por Westeros: um jovem cavaleiro andante titular, Sor Duncan (Peter Claffey), o Alto, e seu escudeiro, o pequeno Egg (Dexter Sol Ansell).

De cara, desde o corte brusco na clássica trilha sonora da franquia, a série deixa claro que tem um tom distinto de Game Of Thrones e House Of The Dragon. É o mesmo mundo, mas observado de baixo. Uma narrativa mais humilde, que troca o épico pelo terroso, sem perder a força e poder.

Duncan é um homem grande, chamado até de meio-gigante em certo momento. Mas diante da vastidão de Westeros e do peso de suas histórias conhecidas, ele se torna uma figura minúscula. Sua jornada, portanto, não é sobre grandeza concedida, mas sobre grandeza buscada. Um plebeu em uma terra onde a grandeza é um direito de nascença, para aqueles que tem belas espadas e armaduras, grande fortalezas, para quem venceu grandes guerras e batalhas, para quem tem dragões e para os que descendem dinastias seculares.

A série não esconde seu destino, afinal os livros e a série original, Game Of Thrones, já o consagraram. A questão que ela levanta é mais íntima: como? Como um homem tão insignificante se torna lenda? A resposta parece morar não nos feitos, mas no caminho traçado.

O episódio abre com um funeral simples. Duncan enterra seu mestre, Sor Arlan de Pennytree, sem conhecer as palavras corretas ou os ritos litúrgicos. Age apenas por um senso interior de dever. Dá um descanso digno, ainda que rude. Essa é sua primeira lição de cavalaria: a ética precede a cerimônia.

E se tratando de senso ético, ao se lembrar de alguns momentos com seu falecido mestre, fica ainda mais evidente o de Sor Duncan, mesmo que de maneira implícita. A ética de Duncan, se mistura com sua quase palpável inocência, quando, por exemplo, em flashbacks, vemos que essa ética foi forjada na resignação. Duncan aceitava castigos injustos sem delatar o verdadeiro culpado. Buscava um reflexo de nobreza em seu mestre, mesmo quando as cenas nos mostram que tal nobreza era falha, ou talvez inexistente. Ele honrava a ideia do cavaleiro, não necessariamente o homem que Sor Arlan foi.

Sor Duncan, em sua peregrinação solitária até o torneio onde planeja se provar cavaleiro, encontra Egg. Perfeitamente adaptado para a tv, o menino surge como uma bússola moral, apontando para o norte da questão central: o que é ser cavaleiro, além da armadura, escudo, espada e lança? Egg possui uma clareza que desarma qualquer um, com sua audácia e pretenção, que transcende sua idade e tamanho. Ele então insiste em ser o escudeiro de Duncan, que recusa categoricamente, talvez por não se julgar digno, talvez por temer o peso de guiar outra vida. “Não queira ser escudeiro de alguém como eu”, diz. É a fala de quem claramente ainda não enxerga seu próprio valor.

O episódio insiste constantemente em evidenciar que quer queira, quer não, você é o que veste, ao trazer vários personagens fazendo apontamentos até mesmo cruéis em relação as vestimentas de Duncan, que se assemelham mais a um fazendeiro do que um nobre cavaleiro. Ainda assim, o cavaleiro andante se esforça e aparenta ser mais limpo que tudo ao seu redor, não só fisicamente. Sor Duncan, O Alto, vai precisar provar o que é e convencer todos ao seu redor que é de fato o que diz ser. O tema “o que é ser cavaleiro” vai ser o pilar desse primeiro episódio e provavelmente de toda primeira temporada.

A introdução Lyonel Baratheon, O Tempestade Risonha, herdeiro de Ponta Tempestade, é de uma beleza de encher os olhos. Souberam adaptar a beleza e personalidade do personagem de maneira genial. Seu diálogo com Duncan flui como verso solto, entre vinho, risadas e histórias. A amizade nasce em um flerte e uma dança embriagada, sob a tenda Baratheon. É uma cena que ensina mais sobre códigos e lealdade do que qualquer discurso.

Ao retornar a sua “tenda”, Duncan encontra Egg novamente. O menino limpou seus cavalos e preparou sua comida. Uma dedução silenciosa e prática. Duncan, cercado por essa bondade pragmática, finalmente cede. Aceita o escudeiro. Não por palavras, mas por ações.

O Cavaleiro dos Sete Reinos é mais simples e menor que suas antecessoras, mas está a altura delas. A narrativa é direta, sem adornos, mas carrega uma profundidade quieta. O primeiro episódio é um verdadeiro deleite em todos os aspectos. O roteiro usa cenas como a da bebedeira e dança de Lyonel com Duncan, para explicitar certas coisas sobre os personagens, lugares, leis… sobre as regras daquele mundo. Tudo isso sem forçar diálogos explícitos. As relações nesse episódio nascem de gestos, não de tratados. Absolutamente tudo soa orgânico, respirável.

O episódio se encerra sob um céu estrelado. Homem e menino observam o firmamento. Uma estrela cadente risca a escuridão. Egg comenta que eles têm o privilégio de vê-la, enquanto os nobres em suas tendas só veem o linho do teto. Duncan, com a ingenuidade de quem ainda acredita em sorte, pergunta: “Então a sorte dela vai ser somente nossa?”. Egg sorri, calado.

A sabedoria daquele sorriso é o cerne do episódio. “Egg” não segue Duncan por títulos ou glórias. Ele o segue porque vê a verdadeira cavalaria: não a que ergue castelos, mas a que olha para as estrelas. Eles vivem o mundo em sua crueza real, fora dos muros e das fortalezas. A história deles é escrita em poeira e céu aberto. E é nisso que mora a beleza dessa série.

Esse primeiro episódio é lotado de pistas e foreshadowing. Para quem é, assim como eu, um veterano no universo de A Song Of Ice And Fire, sabe sobre o que são, o que mostram e seus significados. Para quem não é, eu garanto que vale a pena esperar pelas surpresas e viradas dos próximos episódios.

NOTA: 10/10

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