Permitam adiantar: este é o episódio do Egg, e o mais sublime até agora. Nos dois episódios anteriores, a própria trama lançava perguntas sobre o jovem escudeiro; este terceiro capítulo, porém, revela o mistério cuidadosamente construído. Antes, víamos o mundo através dos olhos de Duncan. Agora, neste episódio, somos conduzidos pela mão de Egg, que se torna nosso guia e verdadeiro protagonista, especialmente no instante da grande revelação desta temporada de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’.

Este desdobramento segue um curso inverso ao de suas predecessoras, ‘Game of Thrones’ e ‘House of the Dragon’. O grande mistério não é reservado para o fim da jornada. A escolha foi a de não estender, livrando o espectador do cativeiro de nutrir o desejo para o instante final. Aqui, o propósito e a essência são outros.
Começamos acompanhando Egg em seu treino “secreto”, um ritual solitário destinado a forjar o escudeiro perfeito para as justas que o seu cavaleiro, Sir Duncan, almeja enfrentar. Egg é uma criança de compromisso inabalável, uma alma de personalidade forte e astúcia silenciosa. Nele, arde não o desejo vão por glória, mas uma profunda necessidade de servir, de zelar, de aprender. Ele anseia oferecer o seu melhor, um espelho do valor que vê em seu cavaleiro. Testemunhamos Egg descobrindo, na prática mais pura, a sua função de escudeiro. É um aprendizado além da técnica; é a busca por um lugar no mundo. Egg não deseja apenas existir; ele quer ser útil. Sua jornada é a de encontrar a função singular que sua alma parece buscar, um propósito a preencher com dedicação e mãos dispostas a trabalhar duro.
O dia chega, e com ele, Egg retorna ao acampamento. Sir Duncan esboça o esforço de uma aspereza… mas a fachada se dissolve como neblina ao sol. Duncan não pode, nem consegue sustentar a pose; tal rigidez é alheia à essência que, fio a fio, teceu o vínculo entre eles. O que se segue é um daqueles instantes mínimos, íntimos e aparentemente insignificantes, nos quais o universo parece se contrair para caber entre duas mãos. Entre os dedos de Sir Duncan, uma agulha parece um objeto estranho, e diante deles, um simples tecido surrado. É esse o sagrado que ele apresenta ao escudeiro: o gesto paciente de unir dois bordos rasgados, o ponto preciso que restaura aquela peça velha.

E então, ao ver Egg executar, com acerto, o movimento ensinado, algo irrompe no rosto austeramente marcado de Duncan. Não é um sorriso contido, mas uma alegria genuína, plena, que ilumina o olhar. O momento, revela novamente a verdade de sua alma: um mentor de espécie rara, que não ensina com o ferro da exigência, mas com a delicadeza do cuidado; não com a impaciência do tempo que corre, mas com a paciência eterna das coisas que são, simplesmente, transmitidas de coração para coração. É um momento “simples” entre eles, mas traz lágrimas aos olhos.
Mais uma vez, cavaleiro e escudeiro estão lado a lado, espectadores fiéis assistindo ao torneio. Se antes eram duas sombras deslocadas, envoltas em nervosismo e temor, agora se dissolveram plenamente no calor daquele público. Gritam, torcem, compartilham bebidas e risos com a multidão ao seu redor, entregues à simples alegria de estar, de pertencer àquele momento vibrante.

Depois, os dois se encontram deitados na grama, sob o céu aberto, observando Vaufreixo de uma nova perspectiva, não mais do chão, mas de um leve declive, como se o mundo inclinasse para contar um segredo. É na serenidade desse campo verde que o laço entre eles ganha mais força. Falam do futuro, daquilo que os aguarda depois que a última lança estilhaçar e o último grito ecoar naquele torneio.
Egg, com a fé inabalável da juventude, insiste em permanecer como escudeiro de seu cavaleiro. Duncan resiste, não por falta de vontade, pois a companhia do menino ilumina seu caminho, mas por um temor silencioso: o medo de falhar, de não poder honrar tal compromisso, de ver seus poucos bens se dissiparem como fumaça, caso ele perca as justas. Então, se deixam levar por um devaneio comum, sonhando com alianças improváveis e casamentos com filhas de lordes. E é nesse sonho leve que Egg, mais uma vez, deixa transparecer um conhecimento sutilmente estranho: uma compreensão de política e hierarquia que parece deslocada para um menino plebeu.

Sir Duncan é separado de Egg por um breve momento, e em sua solidão momentânea, seu caráter é colocado em xeque. O mestre do torneio lhe dirige uma proposta sorrateira, um convite para uma luta arranjada com desfecho subliminarmente escrito. Lorde Ashford se endividou para erguer o torneio. E Sir Duncan, o “azarão desconhecido”, representaria o instrumento perfeito: sua vitória, quase que coreografada contra um cavaleiro nobre e renomado, renderia grande lucro para o anfitrião do torneio. Antes mesmo de brandir sua lança em uma justa legítima em Vaufreixo, Sir Duncan, O Alto, descobre a cruel ironia de que sua utilidade para os que habitam os altos salões já começou a ser medida.
O episódio tece sua narrativa em três fios distinto: a amizade de Duncan e Egg. O caráter de Duncan, posto na forja de uma escolha. E o terceiro fio: a fúria do cavaleiro honrado.
E é com essa carga jogada no colo do telespectador sobre a honra ferida e do dever que clama por ação, que o príncipe Aerion Targaryen, O Chama-Viva, antagonista da temporada é apresentado ao público, primeiro, na forma sutil, porém cortante, do príncipe Baelor, cujo olhar carrega o cansaço de quem reconhece uma chama destrutiva em sua própria linhagem. Depois, e de maneira mais visceral, no olhar de Egg, onde o desprezo se mistura com um instintivo e puro reconhecimento de uma injustiça ambulante.

Arrogante e soberbo, Aerion Chama-Viva não é apenas um oponente; é um espelho distortido, um contraste gritante e intencional. Enquanto Duncan é raiz no solo, firmeza e humildade forjada, Aerion é o fogo que busca incendiar tudo que toca. Um constrói com paciência e simplicidade; o outro, com seu mero existir, ameaça. A apresentação não é mero evento, mas a justaposição de dois princípios: o do cavaleiro que serve, e o do príncipe dragão que acredita que o mundo existe para servi-lo.
Chama-Viva personifica o próprio poder que os Targaryen, desde as cinzas da Dança dos Dragões, são obrigados a encenar perante um reino que não mais treme diante das sombras aladas. Não é mais um poder absoluto, mas um eco, uma necessidade urgente de espetáculo, uma exibição exagerada de uma divindade Targaryen que já se foi com a rainha Rhaenyra. Eles não governam mais pelo fogo e terror tangíveis, mas pela memória arrepiante do que um dia foram, um fantasma que precisam vestir com pompa e arrogância para que não se dissolva de vez.

É contra esse espetáculo de força vazia que o grito de Egg se ergue, cru e primordial: um apelo para que o oponente não apenas vença, mas mate o príncipe Aerion Targaryen. Não é um grito de estratégia, mas de puro instinto revolucionário. E, por um instante breve como um suspiro preso, até mesmo Duncan se impressiona. Naquele fragmento de tempo, ele vislumbra no garoto não apenas lealdade, mas uma fagulha de um julgamento ancestral e absoluto, uma verdade nua que sua própria honra disciplinada jamais o permitiria vocalizar.
A crueldade calculada de Aerion, ao atacar não o cavaleiro, mas o cavalo de seu adversário nas justas, é mais do que um ato vil; é uma demonstração perfeita da ruptura entre a realeza e a plebe. É o gesto que mostra a verdade de seu poder: não se funda na nobreza, mas no privilégio brutal de quem vê todos ao seu redor como meros obstáculos ou degraus.

Ele não apenas quebra os códigos da cavalaria; ele os esmaga com desdém. Aquele que, por sangue e título, deveria ser seu guardião máximo, seu defensor e representante vivo, se revela uma antítese absoluta. Enquanto Duncan ergue os códigos como uma estrutura interior, um esqueleto moral que sustenta cada um de seus atos, Aerion os veste como algo descartável, para ser rasgado no primeiro impulso de sua vontade. Nesse contraste, Aerion se consagra como o antagonista e antítese viva de Duncan. Um é construção, o outro é destruição. Um honra o ofício, o outro honra apenas a si mesmo. O cavalo tombado não é um acidente de justa; é um símbolo do que a geração atual da dinastia de Aerion está disposta a sacrificar para reafirmar, através do terror, um eco distorcido de seu antigo domínio divino.
Na sequência final, o episódio se divide como um riacho encontrando dois caminhos. De um lado, Egg, imerso na narrativa encenada de uma peça, talvez um eco distorcido da própria história que agora vive. Do outro, Sir Duncan, compartilhando a solidão amena de uma taça com Raimund Fossoway, uma das raras amizades que germinou neste solo estranho de Vaufreixo. O diálogo que flui entre eles é quase filosófico. Raimund dá voz a uma visão interessante. Para ele, os Targaryen não são meros reis; são seres de origem alienígena, filhos de um continente longínquo além do Mar Estreito. Eles não conquistaram Westeros com direito hereditário, mas desceram sobre ele como um evento cósmico, trazendo consigo dragões, fogo, e uma nova arquitetura de poder fundada no medo e violência.
Em sua fala, há um reconhecimento: esses soberanos não se elevaram dentro das leis do lugar; eles se colocaram, desde o início, acima de todas elas. Sua autoridade não brotou do solo, das tradições ou dos juramentos, mas foi imposta de cima, como deuses. É a percepção de que a dinastia que governa é, em sua essência, uma força exterior, uma chama que ainda queima com o combustível de um mundo diferente e que, como Aerion demonstrou, ainda guarda a capacidade de queimar tudo que toca.
“São crianças de cabelo pálido cada vez mais loucas!”
A conversa com Raimund é um sintoma de uma nova era. Suas palavras, que dissecam a natureza violenta do poder Targaryen, só podem ser ditas em voz alta agora, na ausência que as torna possíveis: os dragões e seus cavaleiros já não estão aqui para impor o medo que silenciava a vassalagem.

Egg irrompe na tenda, um turbilhão de desespero. Tanselle, em sua peça, ousara encenar a morte de um dragão, um ato que era muito mais do que teatro; era uma analogia clara e corajosa, refletindo o estado definhante da Casa Real. Mas a plateia era traiçoeira. Entre os espectadores, estava Aerion, o príncipe que se enxerga um dragão renascido. Para ele, a encenação não era uma alegoria, mas uma profanação, um ataque direto à sua família, a essência daquilo que ele acredita ser. O perigo, agora, não era metafórico, mas iminente e brutal.
“O Dragão nunca deve perder”, proclama Aerion, encapsulando em uma frase a tirania de seu sangue, logo após quebrar os dedos de Tanselle. É a violência como dogma, a crueldade como afirmação de poder.

Quando Egg retorna com Sir Duncan, não é um cavaleiro que avança, mas a fúria da justiça personificada. Duncan não ataca um príncipe da coroa; ele desfere seu golpe contra um covarde agressor, um homem que rasgou o código que deveria vestir como honra. Ele o ataca como a quem falhou no dever mais sagrado: proteger os inocentes. Em seu gesto final, a série grava sua verdade, a de que a honra e nobreza não são sinônimos. Muitas vezes, elas caminham por estradas separadas. A verdadeira nobreza, Duncan demonstra, e não reside no sangue, mas na coragem de se colocar entre a injustiça e sua vítima, mesmo quando isso significa erguer a espada contra um dragão.
Aerion decreta a sentença, a lei de fogo do dragão prestes a consumir Sir Duncan. Então, Egg avança. Mas não é mais o escudeiro que se move; é uma transformação que acontece diante de todos. Sua postura humilde se ergue em imponência, sua voz familiar carrega, de repente, o peso de uma linhagem. O pequeno escudeiro se desfaz, e em seu lugar revela-se o príncipe desaparecido: Aegon Targaryen, filho de Maekar, irmão do próprio Aerion. É um choque que recalibra aquele momento, trocando as lentes da percepção. E quando o olhar do irmão, incrédulo, pousa sobre sua cabeça raspada, a pergunta inevitável surge. A resposta do príncipe-escudeiro vem como um golpe seco, carregado de rejeição: “cortei ele, irmão… para não me parecer com você.” É mais que uma explicação; é um manifesto. É o repúdio completo não apenas a um irmão, mas a tudo o que sua crueldade representa. É o príncipe renunciando visualmente à herança de violência, escolhendo um caminho diferente.

O episódio termina sob uma trilha sonora que não apenas preenche, mas amplifica o silêncio da cena. O choque, visível no rosto de todos, atinge seu ápice mais profundo e silencioso em Sir Duncan, O Alto. Nele, há o peso de uma revelação dupla: não apenas a verdade sobre Egg, mas a verdade sobre si mesmo. Por semanas, sua visão esteve focada no microcosmo da honra, do dever imediato, do cuidado com o garoto à sua frente. Ele protegeu um príncipe pensando proteger um plebeu, guiou um dragão acreditando guiar um cordeiro. A grandiosa ironia do macro, debaixo de seu nariz sem que ele percebesse.
A terceira semana de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ fez surgir, toda a construção silenciosa até aqui. Não apenas a integridade, a honra e o caráter singelo de Duncan foram postos à prova, mas também a verdade mais íntima sobre Egg foi revelada: seu desejo de conhecer o reino visto do inferior, longe da Fortaleza Vermelha e Pedra do Dragão. E então, em meio a essa trama, surge uma cena de aparência simples, que talvez se torne a mais crucial de toda a temporada, ou mesmo da série. Uma vidente, com voz que parece vir de além do tempo, desdobra o futuro diante deles.
Para Sir Duncan, ela oferece um destino paradoxal: “Você não terá tanto sucesso… mas será tão rico quanto um Lannister!” Uma riqueza que, sabemos, não será medida em ouro, mas em algo mais valioso e intangível. Ela então se volta para Egg, e suas palavras esculpem um destino digno de um dragão shakespeariano: “Você será rei… e morrerá pelo fogo, e os vermes se alimentarão de suas cinzas. E todos que você conhece se alegrarão da sua morte.”
É uma profecia que promete glória, mas também sacrifício; não oferece um legado de amor, mas de tragédia e solidão final. Em um instante, o futuro possível dos protagonistas se abre como um abismo e a jornada que parecia ser exclusivamente sobre se tornar cavaleiro e escudeiro, se transforma, para sempre, em uma caminhada rumo a um destino muito maior e mais sombrio.
Este episódio traz uma verdade simples: as identidades que vestimos são cascas. Egg, o príncipe, veste a humildade do plebeu. Duncan, o plebeu, veste a honra do cavaleiro melhor que os nobres de sangue. O segredo revelado não é apenas que Egg é um príncipe Targaryen, mas que a essência de uma pessoa mora em seus atos, não em seu nome ou herança. Enquanto Aerion Chama-Viva, age com a covardia de um rato, Duncan, o homem comum, age com a nobreza de um rei.
A vidência lançada sobre os protagonistas lança um véu sobre o destino: riqueza nem sempre é ouro, mas legado. Um trono não é sinônimo de segurança. O fogo que promete coroar é o mesmo que vai consumir.

NOTA: 10/10

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