O quarto episódio é uma sequência direta dos terríveis eventos do anterior. Duncan, aprisionado após agredir Chama-Viva, aguarda seu veredito na solidão. Sua cela é habitada apenas pela quase-escuridão e por um rato que passa por ali. O gesto instintivo do cavaleiro ao acariciar aquela criatura revela a verdade de que mesmo nas profundezas, sua empatia por toda vida permanece intacta, um reflexo puro e inconsciente.
A própria escuridão é personagem. A noite que envolve a narrativa não é apenas cenário; é a manifestação física do pouco tempo e da urgência que cerca a missão que será dada a sir Duncan.

Dessa escuridão, Egg surge, mas parece diferente. Não é mais o escudeiro plebeu e maltrapilho, e sim o Príncipe Aegon Targaryen, portando uma postura que lembra a de seus ancestrais como a rainha Rhaenyra em seus dias. Contudo, na intimidade da cela, a armadura cerimonial se dissolve. Aegon volta a ser Egg, removendo a máscara pesada da linhagem. Nele, há um conflito: a leveza do ser e o peso do dever, duas existências aprisionadas em um só corpo. O pedido de desculpas é acompanhado de lágrimas infantis. Naquele instante, a criança assustada supera o príncipe Targaryen, revelando o terror perante a grandiosidade de um nome que ela ainda não compreende. A intenção dele nunca foi causar o mal.
“Eu só queria ser escudeiro de alguém. Sinto muito, sir.”

A raiva de Duncan é uma tempestade justa. Ele vê, por um momento, não o amigo, mas apenas outro príncipe dragão, um símbolo de um poder distante da sua realidade. No entanto, um súbito lampejo de cuidado aparece quando ele pede que o menino seque os olhos. O afeto não morreu; apenas se oculta sob o ressentimento.
Na audiência com Baelor, a proteção de Duncan por Egg ressurge. Ele defende o caráter e honra do garoto, mesmo contra a desaprovação velada do tio. Baelor recita um sermão sobre fraternidade quando Egg confessa seu desejo pela morte de seu irmão, Aerion, mas seu olhar carrega o peso que se opõe às palavras ditas ao pequeno príncipe. Ele compreende. Conhece o sobrinho e partilha, no silêncio, do mesmo desprezo.

O julgamento diante da nobreza expõe as fissuras na dinastia. Duncan invoca o combate singular, mas Aerion, em um ato de fraqueza calculada, apela ao Julgamento dos Sete. Ele sabe que jamais venceria Duncan. A covardia do príncipe se veste de astúcia. Seu próprio pai, Maekar, questiona a necessidade de se esconder atrás de seis espadas para ir contra o cavaleiro andante. Aerion, baixo e rasteiro, não percebe que transforma um conflito pessoal em uma crise política, forçando os grandes senhores a um teste de lealdade perigoso. Ele cria uma tempestade, cuja magnitude escapa à sua compreensão limitada.
A busca de Duncan por campeões parece uma demanda impossível. Egg retorna, trazendo Daeron. Peças são movidas e um pacto silencioso é feito: Daeron e Maekar serão poupados. Nada é dito sobre Aerion. Mesmo rompidos, o cuidado mútuo persiste, o cavaleiro pensa no bem do escudeiro, o escudeiro jura arranjar mais espadas em favor da causa. O relato do abuso sofrido por Egg condena Aerion mais do que qualquer sentença, revelando, mais uma vez, que o fio do afeto deles nunca se partiu de fato.

Agora vemos somente Daeron frente a sir Duncan. O príncipe oferece novas desculpas ao cavaleiro e retorna ao seu sonho profético, a mesma visão que trouxe os dois juntos na estalagem, no início de tudo. Duncan se lembra, e agora o sonho ganha um significado mais pesado: as visões proféticas de Daeron se tornam realidade.
Ele é um dos Targaryen portadores dos Sonhos de Dragão, como os de Helaena, em ‘A Casa do Dragão’, que vê o futuro, ou os da própria Daenerys em ‘As Crônicas de Gelo e Fogo’, nos quais ela vê passado, presente e futuro.
Para Daeron, porém, esse dom não é graça, mas maldição. O príncipe, chamado de “O Bêbado”, recorre ao vinho numa tentativa desesperada e inútil de se livrar das visões proféticas. O que para outros seria poder, para ele é tortura antever tragédias sem poder intervir. Quem conhece a história que os livros contam compreende o peso dessa consciência, sabendo o que ainda está por vir, principalmente para Duncan e Egg.
Daeron compartilha então o conteúdo do seu sonho: viu o cavaleiro diante de um imenso dragão morto, mas não soube dizer quem o derrubou. Por fim, pede perdão mais uma vez, num gesto de humildade e humanidade que a história oficial jamais lhe concedeu. Em Daeron, a grandeza não está no sangue, mas na honestidade do arrependimento.
O amanhecer encontra a arena preparada. Duncan caminha para encontrar seus defensores: Humfrey Hardyng, movido pela vingança; Robyn Rhysling, pela fé eclesiástica; e Lyonel Baratheon, o Tempestade Risonha, pela pura glória e também Sir Humfrey Beesbury. A presença de Lyonel é um prelúdio, uma espécie de foreshadowing sobre a Rebelião de Robert, que viria a estourar décadas mais tarde. A traição de Steffon Fossoway prova como a honra, em Westeros, é tão barata quanto uma moeda de cobre.
Quando Raymund Fossoway pede que seja armado cavaleiro, Duncan hesita, duvidando de seu próprio lugar naquela ordem. Lyonel, percebendo a urgência do momento, toma a frente, concede o título em um ritual teatral e grandioso, tornando o momento ainda mais elegante.

O discurso final de Duncan é um apelo aos princípios esquecidos: proteger os inocentes, honrar o juramento, mas a resposta do povo é o desprezo e desdém. Ao se voltar para a nobreza, sua pergunta ecoa na névoa da manhã: não existe mais honra em Westeros?
E então, daquela mesma névoa, a resposta emerge com um cavaleiro em armadura negra, marcado pelo dragão vermelho de três cabeças no peitoral. É Baelor Quebra-Lanças, o Príncipe Herdeiro e Mão do Rei, que se coloca ao lado do acusado. É um ato de genialidade política e redenção simbólica. Ao se afiliar com o discurso de Duncan, ele confronta a arrogância que isola sua casa de seus súditos, e assegura que, qualquer que seja o veredito dos deuses, um Targaryen permanecerá em pé, triunfante. Afinal, o Dragão sempre deve vencer. É a sabedoria de entender que seu poder deve, às vezes, se curvar para não quebrar.

O episódio termina com a trilha clássica de ‘Game Of Thrones’ enchendo o ar, agora sem interrupções abruptas. É mais do que um julgamento; é o nascimento de uma lenda. O início da jornada compartilhada por sir Duncan, o Alto, e pelo príncipe Aegon, seu escudeiro.
NOTA 10/10

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