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O Cavaleiro dos Sete Reinos T1, EP06 – Um futuro 

Neste sexto e último episódio da temporada, a série retorna à essência do que fez Game of Thrones grandioso em seu auge: não um espetáculo de megalomanias, mas um silencioso reorganizar das peças no tabuleiro, preparando o terreno para o que ainda há de vir. É um episódio que une os fios deixados pelas semanas…

Neste sexto e último episódio da temporada, a série retorna à essência do que fez Game of Thrones grandioso em seu auge: não um espetáculo de megalomanias, mas um silencioso reorganizar das peças no tabuleiro, preparando o terreno para o que ainda há de vir. É um episódio que une os fios deixados pelas semanas anteriores e mostra que a série sempre falou de uma coisa só: esta é a história de Sir Duncan, o Alto, um homem tentando encontrar seu lugar no mundo e de Egg, seu escudeiro, o príncipe dragão que deseja romper com as amarras do destino para o qual foi moldado.

Encontramos Duncan deitado sob a árvore de seu acampamento. Sozinho. Ferido. O olhar tão vago e vazio que quase se confunde com a morte. Venceu, sim, mas a vitória, descobriu, não traz consigo a glória como soma inevitável. Agora, porém, Duncan é requisitado. Como num espelho do início da temporada, quando era ele quem oferecia propostas, agora são outros cavaleiros que vêm até ele. Lyonel lhe oferece uma nova vida em Ponta Tempestade, fortaleza da Casa Baratheon. Mas o cavaleiro pouco se interessa; outros fantasmas ocupam sua mente. Os acontecimentos deste fim de temporada são diretos, quase cirúrgicos. Os diálogos vão ao ponto, afinal, é tempo de fechar aquilo que se abriu nos primeiros episódios.

Com dificuldade, arrastando os ferimentos, Duncan segue até o funeral do príncipe Baelor. Só depois da cremação apressada, quando quase toda a família do dragão já se retirou, ele encontra coragem para se aproximar de Valarr Targaryen, o filho de Baelor. Duncan lamenta a morte. Valarr, porém, não recebe o lamento com aceitação, mas com uma pergunta que ecoa contra o silêncio dos deuses: por que um homem como Baelor Quebra-Lanças foi ceifado, e um ninguém como Duncan continua a respirar? Por que o universo escolheu esse sujeito comum e não um príncipe dragão? Não há raiva em suas palavras, apenas a constatação dolorosa de como os deuses gostam de jogar com os homens.

Essa sequência do funeral é bastante interessante ao mostrar que mesmo sendo a família real, a família mais poderosa do continente, mesmo sendo a casa do dragão, os Targaryen, além de naturalmente melancólicos, são solitários. Em Ashford, estão muito longe de suas sedes ancestrais; Pedra do Dragão e a Fortaleza Vermelha. Eles estão visivelmente desolados e deslocados. O luto por Baelor intensifica ainda mais tudo isso.

No caminho de volta, Duncan atravessa as tendas do torneio, já em parte desmontadas. Olhares cruzados de admiração, desaprovação, curiosidade e  desconfiança até ser intimado pelos guardas da casa real. Maekar exige audiência. E onde dias antes Duncan conversava com Baelor Quebra-Lanças, agora ele encara Maekar, num estranho composto de luto compartilhado, raiva, culpa e remorso. Maekar sabe dos boatos: que queria a morte do irmão, que sempre ambicionou sua posição. Sabe e teme que isso o assombre por toda a vida. Sabe que seu reinado não será fácil, que sempre será comparado a Baelor. Acreditem, Maekar morreu junto com o irmão no Julgamento dos Sete e seu reinado deixará isso cada vez mais nítido.

Mas há, no momento, uma preocupação maior: a tutela, a criação, o treinamento de Egg. Duncan apresenta seus termos: levar Egg por todo o continente, como um cidadão comum dos Sete Reinos. Maekar recusa, categórico. Para ele, é um absurdo que alguém com sangue de dragão viva assim. Egg deve, e vai, ser treinado em Solarestival, com os mestres de armas Targaryen.

Nesta sequência de diálogos, é nítida a diferença entre Maekar e Baelor. Compreendemos por que Baelor Quebra-Lanças era visto com esperança, admiração e respeito pelo povo, enquanto Maekar é apenas respeitado pelo nome que carrega. Baelor entendia a causa do povo, a abraçava. Maekar vê o povo apenas como súditos, nada além. Uma visão que se une a de seu filho, Aerion Chama-Viva. Maekar subestima todos abaixo dele; para ele, Duncan é substituível, apenas mais um cavaleiro andante entre tantos. Mas os sonhos proféticos de Daeron dizem o contrário. Em suas visões, o destino de Duncan está firmemente entrelaçado ao dos Targaryen e ao próprio destino de Westeros. Ele é peça fundamental.

Duncan recusa a proposta de servir à casa real, já que os termos de Maekar não o cativam. Está cansado de príncipes e tramas da corte. Horas antes, havia jurado lealdade a Baelor; agora, parece retroceder, mas talvez apenas porque não enxerga em Maekar o exemplo que via em Baelor. Mais uma vez, o roteiro nos lembra o quanto Baelor era diferente dos seus.

Já fora da sala de audiência, Egg, que ouvira tudo, questiona Duncan mais uma vez. O cavaleiro reafirma a recusa.

“— Talvez você não seja o cavaleiro que pensei que fosse.”

Essas palavras lançam Duncan ao passado. E então a verdade emerge, mais clara do que nunca: ele nunca foi armado cavaleiro por Sir Arlan. Foi o destino quem o armou, quando o lançou naquele julgamento e o empurrou para aquela vitória tão custosa. Talvez Sir Arlan, sabendo o quão cruel é o ofício cavaleiresco, tenha encontrado nessa omissão uma forma de protegê-lo.

Ao cravar a moeda na árvore, Duncan não apenas homenageia seu antigo mestre, ele inicia uma nova jornada. É uma convocação. Ele já está juramentado. Ser andante é seu compromisso, tenha ou não um escudeiro. Quando Egg retorna, mais tarde ao fim do episódio, outra convocação se apresenta: a de proteger, educar e armar um príncipe dragão.

Agora vemos Egg, sozinho em um quarto, desapontado com a recusa. Percebe que seu cabelo está voltando a crescer, platinado, como o de Aerion, o irmão que ele tanto despreza. Com uma faca, segue até o quarto de Aerion, que repousa destruído após o julgamento. A intenção é clara: a raiva ainda pulsa, quase indomável. A poucos passos de matar o irmão, é contido por Maekar, que o abraça num lamento silencioso, um pai que sabe os filhos tem, o que eles são e o que carregam. A faca cai das mãos de Egg, as lágrimas caem de seus olhos e ele se rende aos braços do pai.

Mais uma vez, Duncan se mostra peça fundamental. Num breve diálogo com Daeron, compreende que o futuro de Egg está em jogo. Na corte, Egg pode tornar-se alguém como Aerion, ou pior. A única esperança de que ele seja um príncipe diferente é sendo escudeiro de Duncan, longe da corte, da pompa e da realeza. Egg precisa ser salvo do nome e da convivência Targaryen.

O tempo passa. Duncan, já recuperado, se prepara para partir. De repente, Egg surge, chamando por ele. Diz que o pai, o príncipe Maekar, ordenou que ele sirva o cavaleiro andante. Uma grande mentira evidente. Egg pergunta para onde irão. Duncan responde: “Para qualquer lugar dos sete reinos.”, mas Egg o corrige dizendo que são nove, mais uma vez mostrando que assim como Baelor, sua visão de mundo é diferente. E sinceramente? Se Egg diz que Westeros tem nove reinos, é bom confiarmos nele.

A última sequência revela a mentira. Maekar conta os filhos enquanto a comitiva real deixa Ashford, mas falta um, o menor, o careca, seu último filho. Ninguém sabe dele ou o viu partir. No fundo, Maekar sabe o que o filho foi buscar.

Egg é como Baelor: enxerga além da tradição, vê o todo. No fim, vemos Duncan, Egg e Arlan cavalgando juntos. Arlan segue seu caminho definitivo. Duncan e Egg começam o deles agora e será um caminho muito melhor e interessante.

O Cavaleiro dos Sete Reinos oferece um olhar diferente sobre Westeros: um olhar de baixo para cima. Acostumados que estamos, por Game of Thrones e House of the Dragon, a ver as tramas das elites e como elas esmagam tudo abaixo delas, esta série nos apresenta algo menor, mais íntimo. É uma história contida, mais pessoal. Enquanto as outras mostram reis, rainhas, grandes batalhas e disputas pelo Trono de Ferro com dezenas de personagens, esta nova série foca basicamente em dois: um cavaleiro andante e seu escudeiro, um príncipe que escolheu ser outra coisa.

A intimidade vem da escala reduzida. Não estamos vendo o destino de reinos, pelo menos não diretamente, mas sim o começo da jornada de dois amigos, enfrentando problemas locais, participando de torneios e tentando sobreviver. É quase um drama de estrada, onde o foco está na relação entre os dois protagonistas, como eles se conhecem, confiam um no outro e crescem juntos.

Outro ponto é a perspectiva. Em Game of Thrones, víamos o mundo pelos olhos dos nobres. Aqui, vemos pelo olhar de Dunk, um cara comum, que não é rico nem poderoso. Isso traz uma visão mais “pé no chão” de Westeros, como vivem os plebeus, estalajadeiros e pessoas simples, algo que as outras séries mal mostravam.

E tem a questão dos dragões. Nessa série, não tem dragão nenhum, até porque a história se passa num período sem eles, após A Dança dos Dragões, a guerra civil que vem sendo contada, mesmo que erroneamente, em House Of The Dragon. A magia fica em segundo plano. O que importa mesmo é a amizade, a honra e as escolhas pessoais num mundo que nem sempre é justo.

Game of Thrones é uma guerra generalizada. House of the Dragon é uma disputa familiar pelo poder absoluto. O Cavaleiro dos Sete Reinos, comparada às duas, é uma conversa entre dois amigos na fogueira. E olha… que conversa incrível! É uma série pequena, de episódios curtos e não poderia ser melhor. Definitivamente, é o melhor lançamento da televisão até o presente momento.

A primeira temporada contou a primeira parte de três contos já publicados por George R R Martin. A segunda temporada já foi confirmada pela HBO MAX e tem seu lançamento previsto para 2027. 

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